Edson Braga analisa por que os maiores problemas de uma empresa raramente começam na própria empresa

Para o empresário, decisões adiadas, egos, medos, falta de diálogo e escolhas mal direcionadas costumam surgir antes dos problemas aparecerem nos números

Empresas enfrentam crises por diferentes motivos. Queda no faturamento, aumento de custos, erros estratégicos, mudanças no mercado, problemas de gestão e dificuldades financeiras estão entre as causas mais frequentemente analisadas quando uma organização começa a apresentar sinais de instabilidade.

Para Edson José Bandeira Braga Filho, conhecido como Edson Braga, no entanto, muitos dos maiores problemas empresariais começam muito antes de aparecerem nos balanços.

Eles podem nascer em uma conversa importante que foi adiada, em uma decisão que ninguém teve coragem de tomar, em uma verdade percebida por todos, mas nunca verbalizada, ou em um ego que se tornou maior do que o propósito da própria empresa.

Também podem começar quando uma pessoa competente é colocada na função errada ou quando uma oportunidade aparentemente extraordinária é aceita simplesmente porque ninguém conseguiu dizer “não”.

Na visão de Edson Braga, existe ainda outro fator frequentemente ignorado: a velocidade.

Em determinados momentos, empresários correm tanto para crescer, expandir, contratar, investir e conquistar novos mercados que deixam de perguntar por que estão construindo tudo aquilo.

É nesse ponto que a reflexão sobre empresas deixa de ser apenas financeira e passa a envolver comportamento, caráter e consciência.

Empreender é lidar com pessoas antes de lidar com números

Ao longo de sua trajetória, Edson Braga afirma ter percebido que empreendedorismo não trata apenas de empresas.

Trata de pessoas.

Trata de escolhas, medo, coragem, caráter, capacidade de perder, disposição para recomeçar e maturidade para decidir mesmo quando nenhuma alternativa oferece segurança completa.

Esse aspecto humano costuma ficar em segundo plano diante de discussões sobre faturamento, margem, valuation, investimentos e crescimento.

Entretanto, são pessoas que interpretam os números e escolhem o caminho a seguir.

Por isso, para Edson, compreender quem está tomando a decisão pode ser tão importante quanto compreender os dados utilizados para justificá-la.

Experiência não significa ter todas as respostas

Uma das transformações provocadas pela experiência empresarial, segundo Edson José Bandeira Braga Filho, está na qualidade das perguntas.

No início de uma trajetória, é natural que um empreendedor queira saber quanto determinada oportunidade poderá render.

Com o tempo, outras questões começam a ganhar importância.

Quanto essa decisão custará além do dinheiro?

Quem será necessário se tornar para sustentar determinado projeto?

Quais pessoas deveriam acompanhar aquela jornada?

Vale a pena conquistar determinado resultado se, para isso, for necessário abandonar princípios considerados essenciais?

E existe ainda uma pergunta mais desconfortável: se tudo der certo, esse é realmente o lugar onde se deseja chegar?

Para Edson Braga, existe aquilo que pode ser chamado de “sucesso errado”.

Ele acontece quando uma pessoa conquista exatamente aquilo que perseguia e, ao chegar ao destino, percebe que escolheu a direção equivocada.

Nesse caso, o problema não estava na capacidade de execução.

Estava na escolha do objetivo.

A planilha não sente medo

Planilhas são essenciais para a gestão empresarial.

Elas apresentam receita, margem, EBITDA, endividamento, valuation, retorno sobre investimentos, payback e dezenas de outros indicadores que auxiliam na tomada de decisão.

Tudo parece racional quando organizado em células e projeções.

Mas existe uma diferença entre números e pessoas.

A planilha não sente medo.

Não possui vaidade.

Não carrega traumas.

Não sente necessidade de provar algo para alguém.

Também não se apaixona por projetos, não se apega ao passado e não possui dificuldade para reconhecer que determinada estratégia fracassou.

As pessoas possuem todas essas características.

Por isso, segundo Edson Braga, algumas decisões empresariais ruins podem surgir mesmo quando os números estão tecnicamente corretos.

O problema não está necessariamente na análise financeira.

Pode estar na motivação de quem decidiu.

De onde vem cada decisão?

Para Edson José Bandeira Braga Filho, uma das maiores evoluções de um empreendedor acontece quando ele passa a investigar não apenas o que está decidindo, mas a origem daquela decisão.

Uma oportunidade pode ser aceita porque realmente possui potencial.

Mas também pode ser aceita pelo medo de perdê-la.

Um projeto pode continuar porque existe convicção sobre seu futuro.

Ou pode continuar apenas porque o ego de quem o iniciou não suporta admitir que chegou o momento de mudar.

Uma empresa pode buscar expansão porque existe demanda e estratégia.

Mas também pode crescer simplesmente porque seus líderes acreditam que bons empresários precisam estar permanentemente expandindo.

O mesmo vale para a dificuldade de dizer “não”.

Nem todo “sim” representa coragem.

Em algumas situações, a verdadeira maturidade está justamente na capacidade de recusar oportunidades que não estão alinhadas aos objetivos da empresa ou aos valores de seus líderes.

Empresas revelam seus líderes nos momentos de pressão

Organizações costumam investir em cultura empresarial.

Missões são definidas.

Valores são escritos.

Apresentações são produzidas.

Princípios são divulgados para colaboradores e clientes.

Entretanto, para Edson Braga, a cultura real de uma empresa aparece principalmente nos momentos de dificuldade.

Quando o dinheiro diminui.

Quando um funcionário importante comete um erro.

Quando surge uma oportunidade de aumentar o resultado por meio de uma prática que não corresponde aos valores defendidos pela organização.

Ou quando é necessário escolher entre uma vantagem imediata e uma relação construída durante anos.

É nesse momento que os verdadeiros princípios aparecem.

“Valor que só existe quando é conveniente não é valor. É decoração”, resume a reflexão apresentada pelo empresário.

Nesse sentido, empresas acabam funcionando como espelhos ampliados de seus líderes.

Suas virtudes aparecem dentro da organização.

Mas suas inseguranças também.

A generosidade pode se transformar em cultura de colaboração.

A ansiedade pode provocar decisões precipitadas.

A confiança pode desenvolver equipes autônomas.

Já a necessidade excessiva de controle pode impedir o crescimento de novos líderes.

Crescer não pode ser a única resposta

Uma das perguntas mais frequentes dentro das empresas é simples: como crescer?

Para Edson José Bandeira Braga Filho, a pergunta é válida, mas deveria ser precedida por outra:

Para que crescer?

A diferença parece pequena, mas altera completamente a estratégia.

Crescimento sem direção pode apenas acelerar a chegada ao lugar errado.

Existem empresas que precisam expandir.

Outras precisam consolidar aquilo que já possuem.

Algumas precisam contratar novos profissionais.

Outras precisam simplificar processos e estruturas.

Certas organizações precisam entrar em novos mercados, enquanto outras deveriam recuperar a própria identidade antes de iniciar uma nova fase de expansão.

Nem todo movimento significa progresso.

Da mesma forma, nem toda pausa representa atraso.

Edson Braga compara esse processo aos ciclos da natureza. Uma árvore não produz frutos durante todas as estações e, ainda assim, continua seu desenvolvimento.

Para o empresário, negócios também precisam aprender a respeitar ciclos.

Toda decisão também representa uma renúncia

Outro aspecto destacado por Edson está na natureza das decisões.

Escolher um caminho significa, inevitavelmente, deixar outros para trás.

Ao decidir por uma empresa, outras oportunidades são abandonadas.

Ao escolher um sócio, abre-se mão de outras possíveis parcerias.

Uma estratégia escolhida elimina dezenas de alternativas.

E a escolha sobre onde colocar o próprio tempo talvez seja uma das mais importantes.

Dinheiro pode ser recuperado.

Tempo, não.

Nesse sentido, maturidade empresarial não significa tentar aproveitar todas as oportunidades possíveis.

Pode significar escolher profundamente algumas delas e ter coragem para deixar as demais passarem.

O que uma empresa constrói além do patrimônio

Depois de anos convivendo com empresas, colaboradores, investidores, fornecedores, crises, oportunidades e recomeços, Edson Braga propõe uma pergunta que ultrapassa os balanços:

O que realmente está sendo construído enquanto uma empresa cresce?

Patrimônio, empregos, produtos, marcas e estruturas físicas possuem valor.

Mas existe uma construção menos visível acontecendo ao mesmo tempo.

Empresários estão construindo reputação.

Estão definindo a maneira como serão lembrados pelas pessoas que trabalharam ao seu lado.

Estão construindo a confiança associada ao próprio nome.

Também estão transmitindo exemplos aos filhos, às equipes e às pessoas que acompanham suas decisões.

Segundo Edson José Bandeira Braga Filho, é justamente nesse território que começa a construção do legado.

Legado não é apenas aquilo que permanece depois da morte.

É aquilo que uma pessoa deixa diariamente na vida das pessoas ao seu redor.

Empreendedorismo como escola de vida

Apesar das dificuldades, Edson Braga afirma continuar acreditando profundamente no empreendedorismo.

A possibilidade de imaginar algo que ainda não existe, reunir pessoas em torno de uma ideia, construir uma empresa e transformar oportunidades em realidade continua sendo uma das experiências mais relevantes do mundo dos negócios.

Mas existe também outra dimensão.

Poucas atividades colocam uma pessoa tantas vezes diante de si mesma quanto empreender.

O empreendedorismo testa paciência, coragem, ética, capacidade de confiar, relação com o dinheiro, ego e disposição para recomeçar.

Por essa razão, construir uma empresa pode representar muito mais do que desenvolver uma organização.

Pode se transformar em uma verdadeira escola de vida.

Para isso, porém, Edson considera necessário interromper ocasionalmente a velocidade, sair das planilhas e formular uma pergunta que nenhum relatório financeiro é capaz de responder:

A empresa que está sendo construída também está ajudando a construir a pessoa que seu líder deseja se tornar?

No fim, talvez existam dois balanços.

O primeiro registra aquilo que uma pessoa acumulou.

O segundo revela aquilo em que ela se transformou durante o processo.

Para Edson Braga, compreender os dois pode ser essencial para construir empresas mais sólidas, decisões mais conscientes e trajetórias capazes de produzir não apenas sucesso, mas também significado.

By Diário do Paraná

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